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Bancada evangélica anula eleição de novo presidente em disputa inédita e tensa

A queda de braço eleitoral ficou entre os deputados Silas Câmara (Republicanos-AM) e Eli Borges (PL-TO)

Por: Redação
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PAÍS |

Desta vez não deu: sem chegar a um acordo, a bancada evangélica fez uma inédita votação para eleger seu novo presidente. Com bate-boca entre seus membros e ameaças de judicialização, a eleição não chegou a lugar algum nesta quinta-feira (2) e foi adiada.

A queda de braço eleitoral ficou entre os deputados Silas Câmara (Republicanos-AM) e Eli Borges (PL-TO).

É a primeira vez que o bloco recorre às urnas para decidir quem o guiará. Pleitos passados tiveram como praxe a aclamação de um presidente sem necessidade de votação. Assim aconteceu desde a criação da Frente Parlamentar Evangélica, em 2003.

O deputado Silas Câmara durante evento da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, em 2019 – Mateus Bonomi – 18.dez.19/Folhapress

Sem o costume de realizar eleições, a bancada sofreu diversos problemas com o processo de votação.

O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), presidente do bloco que passará o bastão, disse que houve divergência entre a quantidade de votos e o número de parlamentares que assinaram a lista de presença.

“O nosso sistema, por problema de internet, tem várias quedas, e por isso tivemos problemas na nossa lista [de membros da bancada]. Nós tivemos alguns que, por acharem que o nome estava na lista, colocaram seus votos. Por conta disso, minha decisão foi pela nulidade da eleição nesse momento.” Novo pleito foi marcado para a segunda quinzena de fevereiro.

O candidato que corre por fora, Eli Borges (PL-TO), não topou a proposta de revezar com Silas Câmara na chefia da bancada. A sugestão declinada: Borges seria presidente em 2024, e Câmara, neste primeiro ano de governo Lula (PT).

O jeito foi ir para voto. Inicialmente eram quatro na disputa, mas Otoni de Paula (MDB-RJ) e o senador Carlos Viana (Podemos-MG) desistiram de última hora da peleja eleitoral.

A anulação da votação só foi definida após mais de quatro horas de discussão. Nesse meio tempo, Otoni afirmou que, se o pleito não fosse anulado, entraria na Justiça. “Está sendo fraudada a eleição pelo grupo do Silas Câmara […] A gente não fala que é crente, a palmatória do mundo? Corrige gays, corrige todo mundo, e faz essa sacanagem aqui dentro?”

Um dos mais longevos evangélicos na Casa, com o primeiro dos sete mandatos iniciado no século 20, Silas Câmara é de uma família forte na Assembleia de Deus do Norte. Seu irmão Samuel Câmara lidera em Belém a chamada Igreja-Mãe, a primeira expoente brasileira dessa denominação, fundada em 1911. Jonatas Câmara, outro irmão, está à frente da Assembleia de Deus no Amazonas.

Havia expectativa de um acordo entre os adversários aos 45 minutos do segundo tempo. Há precedentes.

O próprio Câmara, quando foi eleito pela primeira vez, em 2019, viu a pacificação em torno do seu nome ser selada no próprio dia. Cinco rivais abandonaram o páreo em seu benefício, incluindo Flordelis (então PSD-RJ). Três meses depois, seu marido seria assassinado, crime pelo qual ela acabou condenada no ano passado.

O bloco pretende ampliar seus espaços de poder na Câmara com a eleição de bancadas mais conservadoras na eleição de 2022.

Símbolo da força dos evangélicos, duas lideranças do segmento foram eleitas para os cargos de 1⁰ vice-presidente (Marcos Pereira, do Republicanos-SP) e 2⁰ vice-presidente (Sóstenes).

Sóstenes chegou a usar um adesivo com o rosto da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) na quarta-feira (1⁰), em apoio à eleição da petista para o cargo de 2ª secretária da Câmara. Aliado do pastor Silas Malafaia, ele costuma fazer da oposição do PT, partido ao qual se filiou por um breve período na juventude, um ponto de honra.

“Uso o adesivo hoje para respeitar o acordo entre os partidos, mas amanhã eu volto à oposição e defendo ideias contrárias às desse governo [Lula]”, afirmou.

Rosário, aliás, sentou-se à mesa com Sóstenes e outros cabeças da bancada. Ela já havia ido a um café da manhã oferecido na terça (31) pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-PI), a parlamentares evangélicos, o que aborreceu parte deles.

Marco Feliciano (PL-SP) não esqueceu que a petista, enquanto ministra de Direitos Humanos de Dilma Rousseff, fez o que pode para não deixá-lo presidir a Comissão de Direitos Humanos da Casa e o acusou de incitar o ódio. Ele chegou ao cargo em 2013, por indicação do seu partido à época, o PSC, que fez um acordo com o PT.

O deputado Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) disse à Folha que, sem consenso entre os candidatos, a bancada preferiu não passar a impressão de que a votação a rachou. Daí postergar a eleição.

Questionado se haveria alguma mágoa com o fato de a Universal não ter representantes no posto máximo da bancada, Crivella respondeu: “Aqui, seguimos o que está na Bíblia: o Pai é nosso, de todos nós”.

Lideranças da frente fazem apelos para que, diferente dos últimos quatro anos, os evangélicos sejam mais atuantes nas comissões da Câmara, para evitar o avanço de pautas mais à esquerda. Preocupa sobretudo flexibilizações no direito ao aborto e avanços nos direitos LGBTQIA+.

O novo governo começou provocando, disse Sóstenes, o presidente de saída. Irritaram gestos como o uso do pronome neutro (“todes”) em eventos oficiais e a limpeza do Palácio do Planalto com sal grosso. O elemento é vinculado a religiões de matriz africana, demonizadas por parte das igrejas cristãs.

Estima-se que a bancada desta legislatura contará com 132 deputados (26% da Câmara) e 14 senadores (17%). Os congressistas evangélicos gostam de dizer que eles estão subrepresentados nas duas Casas. O novo censo ainda não saiu, mas projeções apontam que essa parcela cristã saltou dos 22% registrados em 2010 pelo IBGE para mais de 30% da população.

A atual frente juntou 187 deputados e 30 senadores signatários. Não necessariamente todos são evangélicos. Há quem, mesmo sem ser da religião, ratifique a criação do bloco parlamentar.

A composição anterior teve a assinatura de 195 deputados, mas na prática atuavam pra valer pouco mais de cem deputados evangélicos. Menos ainda no núcleo duro, que frequenta os cultos semanais no Congresso. Quase todos são de direita, mas há exceções, como Benedita da Silva (PT-RJ).

Há ainda poucos deputados que se reconhecem nessa religião, mas não encorpam a bancada. Caso de André Janones (Avante-MG), que descarta aderir ao grupo por achar que se o fizesse “seria desrespeitoso com os eleitores de outras crenças a quem também represento”.

O estreante Nikolas Ferreira (PL-MG), recordista de votos para a Câmara, é um de seus novos representantes. Também entram um trio novatos sob investigação por supostamente incentivar os atos antidemocráticos que depredaram Brasília no dia 8 de janeiro: Clarissa Tércio (PP-PE), Sílvia Waiãpi (PL-AP) e André Fernandes (PL-CE).

Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) estava presente na eleição.

A bancada evangélica existe desde os anos 1980, mas só foi oficializada em 2003, no mesmo ano em que Lula chegou ao Palácio do Planalto após três incursões presidenciais fracassadas. A Frente Parlamentar Evangélica nasceu “destinada a assegurar os direitos do povo cristão”, como diz seu estatuto.

Em 2022, Silas Câmara lembrou dessa fundação. Alguns pares temiam que a iniciativa soasse como segmentação religiosa, ele disse em reunião do bloco. “Não, meu irmão, […] vamos criar uma semente no Brasil, de que aqui tem servo de Deus.”

O senador Carlos Viana chegou a pleitear a presidência da bancada, mas voltou atrás, reconhecendo que os deputados têm precedência no posto. Ele vai capitanear os evangélicos do Senado, um time que conta com a “terrivelmente cristã” Damares Alves (Republicanos-DF) e Magno Malta (PL-ES), que retorna à Casa após perder a vaga em 2018 para Fabiano Contarato (PT-ES), primeiro senador abertamente gay do país.

evangélica presidente bancada Disputa

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